09 de Setembro – Dia do(a) Médico(a) Veterinária(a)

Por Frances Marie Tims

Me chamo Frances e sou médica veterinária há 41 anos. Comecei minha vida profissional trabalhando com pesquisa de uma doença periodontal em bovinos, até que meu destino deu uma guinada inesperada e me tornei sócia de uma clínica de pequenos animais no Rio de Janeiro. Dentro da minha rotina clínica, convivi frequentemente com a morte. Afinal, os animais viviam menos quando comecei a trabalhar. (Hoje eles felizmente vivem mais, apesar de sempre parecer muito pouco para quem ama seu animal de estimação). Embora eu tenha aprendido a manter a equidistância que um médico precisa ter para não se deixar sucumbir pela fadiga por compaixão, me sensibilizei com a dor dos responsáveis a cada perda de um paciente.

Nunca vou me esquecer do que vi e ouvi durante todos esses anos. Em especial, me lembro do dia da eutanásia do Tyson, um labrador marrom do qual cuidei desde filhote, e que era muito amado pelos seus donos, lutadores de jiu-jítsu. Na ocasião, me vi rodeada por quinze enormes atletas, de mãos dadas, rezando e chorando enquanto eu realizava o procedimento. A emoção tomou conta de todos, e eu chorei junto ao entender a profundidade do apego de toda uma comunidade àquele animal. Foi a minha “virada de chave”. Ali, entendi o quanto nós, médicos veterinários, podemos e devemos cuidar de pessoas enlutadas pela perda de seus animais. Alguns discordam, dizem que esse não é o papel de um médico veterinário. Mas é fato que o acolhimento do profissional, no qual ela depositou toda a sua confiança, fica na memória da pessoa enlutada pelo fim de vida de um animal querido.

O luto antecipatório ao dar uma notícia difícil, a dor da decisão por uma eutanásia, o sofrimento diante de mortes trágicas e inesperadas, o convívio com o sofrimento por doenças crônicas de longo curso. E ainda: a constatação da falta de capacidade de comunicação e acolhimento de toda uma classe profissional que, apesar de lidar com perdas diárias, nunca ouviu de um professor, durante toda a sua formação, que seus pacientes um dia iriam morrer. Tudo isso me mostrou que eu poderia – e deveria – fazer muito mais pelas pessoas no meu dia a dia de trabalho. Afinal, nosso Código de Ética profissional diz que “precisamos sempre aprimorar nossos conhecimentos em prol dos animais, do homem e da natureza”. Lidar com o luto me fez querer respeitar e cuidar também da dor de quem fica.  

Tudo isso me fez entender que eu poderia me capacitar e me tornar uma profissional melhor, mais cuidadosa e acolhedora no momento mais difícil da rotina médica: a hora da morte e da dor e sofrimento decorrentes de perdas significativas. E isso independentemente de como ocorresse um desfecho: com cuidados médicos (àquela época não se falava em Cuidados Paliativos), por opção pela morte assistida ou por um trágico fim inevitável.

Também tive a sorte de ter uma tia amada, psicóloga e tanatologista, que me ensinou a importância dos cuidados de fim de vida, e que me disse, um dia, que, na minha profissão, não seria diferente. A partir daí, construí uma trajetória na Tanatologia. Fiz diversos cursos e aulas e adquiri conhecimentos valiosíssimos com o auxílio de psicólogos especialistas em luto, médicos, enfermeiros, e tantos outros profissionais envolvidos nos diversos âmbitos dos cuidados de fim de vida.

Aprendi que não cabe mais exercermos a Medicina Veterinária sem cuidar das pessoas que integram nossa rotina de trabalho. Afinal, cada animal chega até nós junto com um responsável, às vezes dois ou mais, e em diversas situações e níveis de apego e sofrimento. Vemos de crianças a idosos, passando por pessoas com deficiências, pessoas solitárias, com famílias estruturadas ou não. E, em alguns casos ainda, pessoas às quais a vida, mesmo antes de elas nos encontrarem, já lhes impôs condições difíceis e muitos sofrimentos. Ainda assim, todas elas têm algo em comum: o amor por seus animais de estimação. Que no dia Mundial da Memória Pet, dia 14 de setembro, os médicos veterinários lembrem da importância de oferecer um acolhimento cuidadoso aos responsáveis de seus pacientes, pois isso certamente é o que ficará em seus corações.


Frances Marie Tims, Médica Veterinária, cofundadora do TanatoVet e associada da ABMLuto.

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