A Síndrome Pós-Cuidados Intensivos e o Luto

Por Mayla Cosmo Monteiro

Nos últimos anos, os avanços tecnológicos nas unidades de terapia intensiva (UTI) contribuíram para a redução das taxas de mortalidade de pacientes críticos. No entanto, muitos desses sobreviventes enfrentam consequências graves que afetam não apenas sua saúde física, mas também as esferas cognitiva, emocional e social, comprometendo sua qualidade de vida após a alta e funcionalidade. Esse conjunto de sintomas, descrito em 2010 pela Society of Critical Care Medicine, foi denominado de Post Intensive Care Syndrome (PICS), e traduzido por síndrome pós-cuidados intensivos (Mikkelsen et al., 2020). No Brasil, os intensivistas (profissionais que trabalham em UTI) optaram por utilizar o acrônimo PICS quando se referem ao paciente e, PICS-F, à família.

A PICS afeta diretamente os sobreviventes de doenças críticas que, frequentemente, enfrentam uma experiência transformadora que altera não apenas suas capacidades físicas e cognitivas, mas também sua percepção de identidade e qualidade de vida. O luto, nesse caso, pode ser visto como um processo psicológico paralelo, no qual os pacientes experimentam a perda de sua condição anterior de saúde, de sua autonomia e até mesmo da imagem que tinham de si mesmos. A literatura revela que até 80% dos sobreviventes da UTI desenvolvem algum transtorno psicológico após a alta, o que impacta suas atividades diárias, sociais e ocupacionais. Neste cenário, os pacientes podem apresentar sintomas como depressão, ansiedade, distúrbios do sono, transtorno de estresse pós-traumático e ideação suicida (Teles, Teixeira & Rosa, 2019).

Os familiares de pacientes sobreviventes ou não da UTI também sentem o impacto psicológico da experiência vivida neste setor, e podem ser acometidos por sintomas como ansiedade, depressão, fadiga, distúrbios do sono, estresse pós-traumático, entre outros sintomas. Acresce-se o luto complicado, no caso de falecimento do paciente, especialmente entre os familiares que passaram por longos períodos de sofrimento emocional e físico devido à doença crítica do ente querido. A esse conjunto de sintomas, deu-se o nome de PICS-F (Shirasaki et al., 2024).

Quando a morte do paciente ocorre, o luto dos familiares pode ser intensificado pela sensação de falta de controle da situação, pela culpa, pela dificuldade de despedir-se adequadamente e pela dificuldade de comunicação com a equipe de saúde. Importante destacar que o luto é uma experiência individual e que o impacto das ações de suporte varia entre os membros da família. As intervenções de suporte ao luto precisam ser pensadas levando em consideração o contexto social, cultural, espiritual e religioso de cada enlutado. A maneira como cada sistema familiar responderá à perda, ou à ameaça desta, dependerá de sua estrutura prévia, da relação estabelecida entre seus membros, da relação com a equipe de saúde, da condição clínica, entre outros fatores (Monteiro, Genaro, Rodrigues, 2023).

A identificação e a compreensão dos fatores de risco, juntamente com a adoção de estratégias de prevenção e intervenção, são cruciais para minimizar os impactos negativos dessas síndromes. A implementação de intervenções como conferências familiares, estimulação cognitiva precoce, acompanhamento psicológico, uso de diários de UTI e programas de apoio ao luto desempenha um papel fundamental na redução dos sintomas de PICS e PICS-F. Essas abordagens não apenas favorecem a recuperação dos pacientes, mas também oferecem suporte emocional adequado às suas famílias, promovendo um cuidado mais humanizado e integral.

Referências:

Mikkelsen ME et al. Society of Critical Care Medicine’s international consensus conference on prediction and identification of long‐term impairments after critical illness. Crit Care Med:48(11):1670–1679, 2020.

Monteiro, MC; Genaro, LT; Rodrigues, L. Cuidado ao luto em Unidade de Terapia Intensiva – Adulto. In: Monteiro, MC, Franqueira, AMR, Coelho, A. Morte e luto no contexto hospitalar e da saúde. São Paulo: Editora dos Editores, 2023.

Shirasaki, K. et al. Postintensive care syndrome family: A comprehensive review. Acute Med Surg: 11;11(1), 2024.

Teles, J.M.; Teixeira, C.; Rosa, R.G. Síndrome pós-cuidados intensivos: como salvar mais do que vidas. São Paulo: Editora dos Editores, 2019.


Mayla Cosmo Monteiro (CRP 05/25188) possui pós-doutorado, doutorado e mestrado em Psicologia Clínica (PUC-Rio). Especialista em Psicologia Hospitalar em Cardiologia (INCOR / HCFMUSP). Coordenadora do Serviço de Psicologia Hospitalar da Clínica São Vicente. Profa do Departamento de Psicologia da PUC-Rio. Coordenadora e professora dos cursos de especialização em Psicologia Hospitalar e da Saúde, e de extensão Morte e Luto no Contexto Hospitalar e da Saúde, ambos pela PUC-Rio. Vice-presidente da SBPH (gestão 24-25). Autora de livros e de artigos científicos sobre mortes, perdas e luto.

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