Celebrar os Povos Indígenas: Um Chamado à Escuta

Por Thais Fonseca Ares

Pelo Dia Internacional dos Povos Indígenas comemorado no dia 09 de agosto

O que não podemos perder em nós mesmos para não nos tornarmos um cidadão que fere os direitos de outro cidadão? É uma pergunta urgente, que cada um deve se fazer com coragem. Celebrar o Dia Internacional dos Povos Indígenas é reafirmar é a importância de que estejam abertos os caminhos que jamais deveriam ter sido fechados. Esta leitura é um convite à escuta, conhecimento, reflexão, valorização da filosofia de vida do povo indígena. Imagine-se no cenário de um dos rituais: Você está caminhando por uma floresta densa e vasta. Já é noite, e a lua cheia ilumina o céu. Esse é um ambiente confortável ou familiar para você? Explore sua imaginação. Conforme você avança na caminhada, passa a ouvir sons vigorosos. Basta apenas mais alguns passos até perceber que você chegou em território indígena.

Aos poucos, seus olhos alcançam a cena de uma intensa celebração. As pessoas indígenas choram, dançam e rezam. Feche os seus olhos e imagine por uns instantes. O que sente? Eles parecem estar cultuando troncos de madeira no centro da aldeia. É um exercício de escuta corajosa. Lembra-se? Neste cenário, o que você imagina que faria? Na cena você está no mundo, na vida. Não é um passeio turístico. A sugestão é que você avance e se aproxime das pessoas, sem invadi-las. Você está no Xingu, no estado do Mato Grosso, Brasil. E não, você ainda não sabe, mas a cerimônia chama-se Kuarup. Não é um ritual comercial, apresentação cultural ou turismo. É a terra deles, é a forma com que os povos indígenas do Xingu celebram os mortos. Os troncos de madeira que você viu tinham, sim, a importância que percebeu. Eles são a representação concreta do espírito dos mortos. Espírito dos mortos? Não há dúvidas de que os limites de muitos foram ultrapassados aqui. Se a missa de sétimo dia, da Igreja Católica, já amedronta alguns, imagine o Kuarup, na floresta. A espiritualidade indígena desperta o quê em você? Já sabemos o que despertou nos portugueses, durante a colonização do Brasil. Pense em você, não nos portugueses. Estar ali, naquele ritual para os mortos, distinto do seu, te provocaria quais pensamentos?

Pode ser razoavelmente simples ler um texto informativo sobre a celebração do Dia Internacional dos Povos Indígenas e concordar que os direitos precisam ser preservados. É mais um texto, mais um dia. Amanhã, haverá outra data celebrada pela Organização das Nações Unidas. A mente assimila e segue. Segue perto ou longe? Volte ao Kuarup. A cultura que não é sua, um ritual sem sentido algum para você e a homenagem aos mortos que você não conhece. Ninguém vem te receber, acolher ou te explicar. Não te veem. Estão ocupados com as próprias emoções, envolvidos na ritualização da despedida daqueles que amam. O respeito não pode ser exercitado de longe. Ou melhor, pode. É claro que o respeito pode — e deve — ser exercitado e praticado de longe. Mas a transformação genuína do desrespeito em respeito, pode?

É interessante pensar que as pessoas devem ser postas à prova. O outro é sempre o vilão. Eu, não. Eu nunca faria tamanha atrocidade. Eu nunca pensaria isso ou sentiria aquilo. Imagine-se verdadeiramente na festa dos mortos, na aldeia, no Xingu. Longe da sua casa, das suas referências, no seu devido lugar de “apenas mais uma pessoa no mundo”. O que você não pode perder em si mesmo, ou deve retomar em sua vida, para que não se torne a pessoa que os povos indígenas não gostariam de encontrar?

Ler é fundamental e se perceber também.



Thais Fonseca Ares – CRP 06/134471 pelo Comitê de Relações Internacionais da ABMLuto

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