Da ferida à responsabilidade: o sentido da Consciência Negra
- Comunicação ABMLuto
- 20/11/2025
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Por Lucélia Elizabeth Paiva em nome do Comitê de Relações Internacionais da ABMLuto
Há datas que não pedem festa, pedem maturidade. O Dia da Consciência Negra é uma delas.
É o chamado para olhar o que o Brasil insiste em não ver: a nossa história começou ferida. Começou com vidas arrancadas de suas terras, com famílias partidas, com corpos vendidos, com saberes proibidos. E, mesmo assim, dessa ferida nasceu força. Nasceram modos de cuidar, resistir e reconstruir que moldam este país, mesmo quando o país tenta fingir que não deve nada a essa memória.
Mas falar de memória sem falar de desigualdade é contar meia verdade.
A desigualdade que começou lá atrás não se encerrou com decretos. Ela se espalha hoje nas ruas, nas casas, nos trajetos, nas oportunidades.
Está na falta de moradia digna, no prato vazio, na escola que não acolhe, na educação básica pública desvalorizada, enquanto a universidade pública – gratuita, excelente – segue ocupada majoritariamente por quem teve acesso a oportunidades negadas à maioria.
A desigualdade está nas portas que não se abrem, no trabalho que exclui, nas promessas que não chegam.
E a criança percebe isso cedo. Ela repara nos tons de pele, nos cabelos, nas ausências, nos acessos. Mas logo é silenciada: “Não fala disso, criança! Somos todos iguais!”
Só que ela vê. Ela sente. E quando ensinamos que igualdade é negar diferenças, ensinamos também a negar injustiças. Criamos uma geração que aprende a não nomear o que fere. Uma geração treinada na inconsciência.
Por isso é urgente diferenciar igualdade de equidade.
Igualdade é tratar todos como se partissem do mesmo ponto.
Equidade é garantir caminhos distintos para que todos alcancem os mesmos direitos: à vida digna, à alimentação, à moradia, à educação, ao cuidado, ao luto respeitado, à humanidade plena.
E aqui, no campo do luto, essa diferença se impõe com força.
Não porque a morte seja desigual. Ela é democrática. Mas porque as condições que levam a ela, e as condições que permitem viver antes dela, não são.
É nesse ponto que a discussão fenomenológica se impõe:
consciência sem responsabilidade vira observação;
liberdade sem compromisso vira fuga;
e compromisso sem consciência vira automatismo.
O Dia da Consciência Negra nos chama a juntar essas quatro dimensões: consciência, responsabilidade, liberdade e compromisso – para que não repitamos, em silêncio, a mesma história.
Na ABMLuto, afirmamos: ver é cuidado. Nomear é cuidado. Reconhecer diferenças é cuidado.
E compromisso é o eixo que sustenta qualquer tentativa honesta de equidade.
E compromisso também é ampliar nosso entendimento de sustentabilidade. Não basta salvar o ambiente e abandonar quem o habita.
Sustentabilidade real é dignidade humana. É garantir que cada pessoa tenha o básico, o justo, o necessário para existir.
Se cuidarmos das pessoas, elas cuidarão do ambiente. Se houver equidade, haverá pertencimento. E onde há pertencimento, há futuro.
Cuidar hoje é semear o que as próximas gerações colherão.
É trabalhar para que, um dia, elas herdem memórias mais dignas que as nossas – memórias capazes de cicatrizar o que ainda dói e construir o que ainda falta. Que esta data nos lembre que nenhuma dignidade é real se não couber na mesa, no teto, na escola, na rua, no cuidado e na despedida de cada pessoa.
Porque a história continua nos observando e exige, de nós, mais do que palavras: exige compromisso.
Lucélia Elizabeth Paiva, Psicóloga, Membro do Comitê de Relações Internacionais da ABMLuto
