Julho, mês de conscientização do luto parental

Por Tatiana Maffini

Quem dera tivéssemos uma receita pronta sobre o que dizer para quem perdeu um filho, ou melhor, uma pílula capaz de eliminar toda a dor e desesperança que os pais carregam diariamente por muito tempo. Sabendo que isso não é possível, muitos de nós nos afastamos. Não olhamos para aqueles que carregam essa marca. Pessoas como eu e você, que tentam levar uma vida saudável, cumprir seus compromissos, conquistar suas coisas, e de repente, têm a vida arrancada de suas entranhas. Isso não é fácil de conviver, de saber como agir. Não há verbo ou palavra capaz de fazer voltar o movimento que a morte de um filho para. O movimento da vida.

E assim, pouco a pouco, nos afastamos deste tema. Ouvir a história de pais cujos filhos perderam a vida em qualquer idade, faz com que a gente chegue em casa, abrace nossos filhos com mais força e passe dias convivendo de maneira mais intensa, até que a nuvem do medo de perdê-los se dissipe. Mas saber a história desses pais deveria provocar muito mais do que medo de sermos eles. Deveria nos provocar a humanidade de ao menos tentar olhar para eles como PAIS e, consequentemente, ouvi-los falar daquele filho que, mesmo que seu corpo esteja morto, permanece vivo neles. A humanidade de dizer que sim, dói em nós também; que também não sabemos o que fazer, o que dizer, e porque isso aconteceu a eles. A humanidade de admitir que se fosse conosco, também não saberíamos o que fazer ou como seguir por mais um dia. E, muito além disso, a humanidade da humildade do aprendizado, de ouvir sobre essa experiência a partir das palavras de quem a sente. De nos moldarmos ao que essa pessoa precisa nesse momento, que nós, em nossos pensamentos, muitas vezes imaginamos que não suportaríamos.

E este é o convite do Julho Âmbar: olhar, dialogar, aprender e disseminar informações sobre o luto parental. A importância de dedicar um mês inteiro a essa causa transcende a simples lembrança, pois destaca a necessidade urgente de aumentar a conscientização pública sobre o impacto devastador do luto parental em indivíduos, famílias e comunidades. 

A mudança do paradigma atual sobre o luto parental não é apenas um objetivo, mas uma necessidade social e humana. Ela exige um compromisso coletivo de reconhecer e apoiar pais e famílias que enfrentam essa jornada de perda e reconstrução, mas há muitos atores sociais que têm um papel a desempenhar: os próprios pais enlutados, protagonizando seu processo, buscando informações, apoio e comunicando o que sentem na medida do possível; a sociedade como um todo, ajudando a romper os estereótipos e buscando informações sobre essa realidade que atinge a todos; o Poder Público, aprovando políticas públicas que reconheçam as necessidades específicas desses pais, apoiando e viabilizando a conscientização sobre o tema para a população e o setor jurídico, ao revisar e reformar leis relacionadas ao luto parental para garantir que os direitos dos pais sejam protegidos de maneira adequada. Profissionais de saúde, que cada vez mais têm buscado se qualificar e desenvolver competências para atuar perante essa realidade de forma compassiva; as instituições de ensino superior, integrando no currículo disciplinas que abordam a morte e o luto de maneira compassiva, e as instituições escolares, tornando-se locais de diálogo e cuidado para as crianças sobre o luto. Empresas também podem oferecer políticas e cuidado aos seus colaboradores como licenças e flexibilidade no local de trabalho para pais enlutados. 

Além disso, os meios de comunicação precisam assumir uma postura responsável ao cobrir o tema com sensibilidade e precisão, sem sensacionalismo ou desrespeito aos envolvidos. Entidades religiosas e comunitárias também têm um papel importante a desempenhar, ao criar espaços de apoio espiritual e emocional, oferecendo compaixão e apoio. Acreditamos que trabalhar nessas esferas de forma integrada e multifacetada é essencial para oferecer um suporte abrangente e eficaz para pais enlutados, ajudando-os a navegar pelo processo de luto com o máximo de dignidade e apoio possível. 

O Julho Âmbar, portanto, não é apenas um lembrete do nosso dever como sociedade de cuidar uns dos outros. É um convite para que todos nós, como indivíduos e como sociedade, comprometamos-nos a transformar a experiência do luto parental em um processo de cuidado, onde o amor e a memória continuam a florescer apesar da ausência física. Que cada filho amado que perdeu a vida seja lembrado não apenas por sua morte, mas pelo amor que trouxe ao mundo.

Informações sobre o Julho Âmbar – Mês de Conscientização do Luto Parental 

História
O Mês de Conscientização do Luto Parental (do inglês – Bereaved Parents Awareness Month) é um movimento internacional para honrar os filhos que morreram e homenagear sua memória, fomentando o apoio social às famílias que tentam sobreviver após a morte de um filho. Atribuído aos americanos Peter e Deborah Kulkkula, que perderam seu filho Peter John aos 19 anos, há registros desde 2013 de organizações e movimentos que celebram a data.

Símbolo e cor
Porque a cor âmbar: nacionalmente, a cor escolhida para representar a causa é a cor âmbar, por remeter ao nascer do sol, a esperança que esses pais precisam após a perda.
Porque o girassol: devido ao simbolismo de que as flores se viram para o sol em busca da força da luz, que aqui representa o filho, e porque em dias nublados, ele busca forças no seu semelhante.

No ano de 2019, a ONG Amada Helena trouxe a iniciativa para o Brasil através da aprovação da Lei 15.313/2019, que instituiu a Semana Estadual de Conscientização sobre a Causa do Luto Parental tornando o Rio Grande do Sul o primeiro estado do país a ter uma semana toda dedicada a falar do luto decorrente da perda de um filho. Definida como a semana de 1º a 7, visto que compreende o dia 3 de julho, internacionalmente conhecido como o dia dos pais enlutados.


Tatiana Maffini é fundadora e presidente da ONG Amada Helena; ativista da causa do luto parental a mais de 12 anos.

  • Foto de Daniela Battastini, que integra a exposição fotográfica “Um mundo em preto e branco”

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