27 de agosto, Dia do Psicólogo: Uma homenagem aos que acolhem a dor do luto
Por Maria Helena Pereira Franco
No Brasil, o dia 27 de agosto marca oficialmente o Dia do Psicólogo, uma data que celebra a importância dessa profissão na promoção da saúde mental e no cuidado com a subjetividade humana. A escolha desse dia remonta a 1962, quando a Psicologia foi regulamentada como profissão no país, por meio da promulgação da Lei nº 4.119. Desde então, psicólogas e psicólogos vêm se dedicando a compreender e acolher as complexidades do comportamento humano, contribuindo de forma essencial para a construção de uma sociedade mais consciente, empática, justa e saudável.
Entre os muitos campos de atuação da Psicologia, o foco aqui presente é aquele que exige um olhar especialmente sensível: o trabalho com luto. Os profissionais psicólogos que se dedicam a essa área enfrentam o desafio de ajudar indivíduos e famílias a atravessarem um dos processos mais dolorosos da experiência humana, a perda.
O luto, não apenas como um evento de perda, mas como um processo vital, singular e imprescindível, é uma jornada que atravessa as dimensões do corpo, da mente e do espírito. É uma resposta natural à perda de algo ou alguém significativo. Pode desencadear amplas e profundas reações emocionais, com impacto na vida cotidiana
Quando o luto se apresenta, a Psicologia convoca todas as suas ferramentas, sejam teóricas, técnicas e éticas, para construir um espaço seguro no qual a dor possa ser acolhida, nomeada e compreendida. O luto é o testemunho da vida que se foi e do vínculo que permanece. É movimento, desafio e possibilidade de reencontro com o sentido, mesmo diante do vazio.
A experiência do luto não habita apenas o pensamento racional. Ela toca o corpo, as emoções, as crenças e, muitas vezes, levanta questões existenciais. As pessoas que vivem um luto não buscam apenas consolo, mas significado. É nesse ponto que a ciência psicológica, ao acolher perguntas sem julgá-las, expande sua atuação e honra sua missão original: cuidar do humano em sua totalidade.
A Psicologia oferece instrumentos para compreender a singularidade do luto de cada pessoa, sem expectativa de um tempo certo ou um caminho linear para elaborar a perda.
Falar sobre luto ainda é um grande desafio em nossa cultura. A sociedade contemporânea, individualista, acelerada e orientada pela produtividade, tem pouco espaço para o silêncio, para o sofrimento e para os processos lentos de elaboração de perdas. Nesse contexto, o trabalho do psicólogo se torna vital: oferece uma escuta qualificada, um espaço seguro e ético para que a dor possa existir sem precisar ser calada, explicada ou vivenciada sob pressão.
Trabalhar com o luto é mais do que acolher a dor: é validar a experiência do outro, oferecer espaço para que sentimentos ambivalentes possam emergir e sustentar, junto a quem vive o luto, a travessia de um processo muitas vezes solitário. Psicólogos que atuam nessa área se tornam testemunhas da dor, mas também da resiliência humana, da reconstrução de significados e da possibilidade de continuar vivendo, apesar da ausência. Tornam-se também companheiros silenciosos de jornadas invisíveis. São eles que ajudam a nomear sentimentos, a organizar memórias, a permitir que a tristeza encontre expressão e, aos poucos, que a reconstrução se torne possível.
São os profissionais que escolheram estar ao lado da dor, não para silenciá-la, mas para escutá-la profundamente. Seu trabalho une o rigor da ciência, a sensibilidade da escuta e a coragem de olhar para o que muitos evitam: a morte, a perda, o vazio.
Que possamos continuar construindo uma Psicologia cada vez mais humana, integral, sensível e inclusiva, capaz de manter o diálogo com a ciência, com a sociedade e com o humano, especialmente quando a vida dói.
Que nós, psicólogos e psicólogas, sigamos transformando dor em caminho e silencio em cuidado.
Maria Helena Pereira Franco é psicóloga (CRP 06/1690). Presidente da Associação Brasileira Multiprofissional sobre o Luto, no biênio 2025-2027.

