O currículo que não está no diploma: As multiperdas no contexto profissional
- Comunicação ABMLuto
- 29/10/2026
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Profissionais que cuidam do sofrimento e dores humanas, são formados para acolher, tratar, acompanhar e sustentar pessoas diante da doença, do sofrimento e da finitude. Entretanto, a dimensão técnica da formação nem sempre contempla a complexidade emocional presente nas relações de cuidado. O profissional também possui uma história, vínculos, experiências e perdas que atravessam sua prática cotidiana.
Nesse contexto, torna-se necessário perguntar: quem cuida de quem cuida? O sofrimento profissional não deve ser compreendido como consequência inevitável do exercício do cuidado. Ele também se relaciona às condições de trabalho, às relações estabelecidas nas equipes e às possibilidades de suporte institucional. Assim, compreender o profissional diante das perdas exige considerar tanto sua dimensão subjetiva quanto o contexto no qual o trabalho é desenvolvido.
O contato cotidiano com a doença, as limitações, as perdas e a morte podem mobilizar experiências desafiadoras, tanto pessoais quanto profissionais. A história pessoal, portanto, não fica do lado de fora do trabalho, ela participa da maneira como o profissional escuta, estabelece vínculos e responde ao sofrimento do outro. Reconhecer essa dimensão não significa fragilizar a atuação profissional, mas ampliar a consciência sobre os processos envolvidos no cuidado.
Entre as experiências que atravessam o cotidiano profissional estão as chamadas perdas silenciosas. A saída de um colega, a mudança de uma liderança, a aposentadoria, a interrupção de um projeto ou a perda de uma função podem romper vínculos e referências importantes. Também pode ocorrer a perda simbólica da identidade profissional quando o trabalhador deixa de se sentir reconhecido ou pertencente ao espaço em que atua. Na saúde, essas experiências assumem características particulares, pois os vínculos construídos com pacientes, familiares e equipes fazem parte da própria prática de cuidado.
A alta de um paciente pode representar uma conquista clínica e, simultaneamente, a ausência de uma relação construída ao longo do acompanhamento. Da mesma forma, o encerramento de um processo psicoterapêutico pode envolver sentimentos de satisfação, gratidão, saudade ou perda. Essas experiências demonstram que nem todo luto está associado exclusivamente à morte. Existem perdas que acontecem no ambiente de trabalho e que permanecem socialmente pouco reconhecidas. Quando não encontram espaço de elaboração, podem favorecer sofrimento, distanciamento, desmotivação e perda de sentido. Por isso, reconhecer os lutos profissionais constitui uma dimensão importante da saúde e das relações de trabalho.
O ambiente profissional pode, entretanto, deixar de ser apenas fonte de sofrimento e tornar-se também espaço de proteção. Relações de confiança, comunicação clara, respeito e possibilidade de diálogo favorecem a construção de equipes mais seguras. Nesse processo, a liderança exerce papel relevante ao oferecer suporte sem impedir o desenvolvimento da autonomia dos profissionais.
Cuidar da equipe não significa eliminar conflitos ou dificuldades, mas criar condições para que possam ser reconhecidos e enfrentados coletivamente. Da mesma forma, o autocuidado não deve ser compreendido como uma recompensa oferecida quando todas as outras demandas já foram cumpridas. Nesse sentido, o cuidado precisa ser compreendido como uma ação circular: cuidar do outro, cuidar de si e permitir-se ser cuidado.
Afinal, quem cuida também sente, também sofre pelas perdas e também precisa de cuidado. Reconhecer essa condição não diminui o profissional, humaniza sua prática e amplia a possibilidade de um cuidado mais ético, consciente e sustentável. Esse currículo não está no diploma, mas se constrói diariamente no encontro com o outro e com as próprias experiências de perda.
Jacqueline Andrade Amaral, Psicóloga, Membro do Comitê Identidades e Lutos da ABMLuto.
Referências
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