Recomeço e transformação: Reflexões sobre o papel do luto durante a reabilitação psicomotora

Por Isa Perrone

“Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou” (Heráclito)

Entre as muitas metáforas passíveis de associação ao processo de Luto, o chamado à transformação interna, movido pela inevitabilidade das mudanças e pelo caráter impermanente da vida, talvez seja o que melhor define o movimento que se estabelece após a ruptura de um vínculo significativo. No adoecimento crônico do corpo, ou quando nos deparamos com as sequelas de uma injúria traumática, a reinvenção de si mesmo a partir de novos parâmetros físicos e cognitivos se impõe de maneira quase que imediata, exigindo do indivíduo a tarefa de se haver com a falta que sente da versão antes conhecida de si mesmo – ao mesmo passo que reaprende quase tudo, reeditando a própria existência.

Na reabilitação, nome que se dá ao tratamento cujo objetivo central é devolver a pessoas com deficiências físicas e/ou cognitivas, a autonomia para o reestabelecimento da maior qualidade de vida possível, uma equipe multiprofissional se dedica à tarefa hercúlea de, junto com o indivíduo acometido e sua família, definir e executar atividades que favoreçam o reestabelecimento de funções ora perdidas, porém recuperáveis, assim como a adaptação para realização de tarefas diárias cuja a deficiência não permite que sejam feitas como antes. Dos muitos desafios inerentes ao processo, a reabilitação é, antes de tudo, a via pela qual o individuo vai se deparar com um sem-número de lutos, inseridos em um luto maior que é a perda da integridade da saúde. De maneira abrupta ou gradativa (doenças degenerativas) a pessoa em reabilitação psicomotora vai se confrontar com a impossibilidade de realizar de maneira autônoma tarefas antes consideradas simples, como se deslocar, realizar autocuidado ou mesmo controlar as próprias dejeções.

O paradoxo do processo de reabilitação é que mesmo as estratégias mais promissoras de oferta de autonomia “adaptada” partem, na maioria das vezes, da impossibilidade de reestabelecer funções básicas de maneira definitiva. Ou seja, quando é oferecido a um indivíduo a oportunidade de aprender a deslocar-se em cadeiras de rodas de maneira autônoma, o pano de fundo desta intervenção denuncia a inviabilidade de deslocamento pela marcha habitualmente (anteriormente) utilizada. De maneira corriqueira isso leva a uma resposta “negativa” do paciente, que pode passar a rechaçar as intervenções propostas, sendo este comportamento nomeado pela equipe multidisciplinar como dificuldade de adesão ao tratamento ou de enfrentamento.

Quando interpretamos o fenômeno supracitado à luz do Modelo Dual, de Stroebe e Schut, podemos inferir o processo de reabilitação como parte do movimento para restauração, uma vez que é caracterizada prioritariamente por ações de adaptação à perda, e que de maneira deliberada visa diminuir o foco sobre aquilo que foi perdido, enfatizando compensações e potencialidades. Ou seja, o espaço para orientação para perda é reduzido em detrimento da restauração. Nesse cenário, é possível que o individuo enlutado leia as propostas de reabilitação como desconectadas de suas necessidades primárias, julgando a equipe como pouco empática e desconectando-se do processo, por vezes até abandonando o mesmo.

Neste cenário, entender o processo do luto, assim como o funcionamento do indivíduo enlutado, é fundamental no acolhimento ao paciente durante a reabilitação, inclusive nas definições das propostas de intervenção. Este olhar, para além de garantir melhor adesão às tarefas, oferece respeito e proteção à condição emocional da pessoa em reabilitação psicomotora.


Isa Perrone é psicóloga clínica e hospitalar, terapeuta sistêmica familiar, especialista em Pesquisa e Intervenção em Luto e instrutora de Mindfulness. Atuou por 13 anos em hospitais de Reabilitação, trabalhando com adultos e crianças com deficiências motoras e cognitivas.

  • Imagem de Joyce Hankins, em Unsplash

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